Entenda a importância e o impacto da reprodução desses primatas; espécie está ameaçada em todo o Brasil e extinta em Santa Catarina.

Veja como estão os bugios-ruivos "Corona" e "Covid" nascidos no CETAS de Santa Catarina No grupo de WhatsApp dos funcionários e colaboradores do Centro de Triagem de Animais Silvestres de Santa Catarina (CETAS-SC) não faltam notícias sobre Corona e Covid.

Mas ao contrário do que você possa imaginar, essas mensagens são capazes de alegrar o dia, encantar os olhos e trazer esperança.

Isso porque a equipe decidiu dar novos significados a essas palavras e “apelidaram” dessa forma dois filhotes de macacos bugios-ruivos (Alouatta guariba) que nasceram no local durante a pandemia.

A chegada dos pequenos ao CETAS-SC, administrado pelo Instituto do Meio Ambiente do Estado de Santa Catarina (IMA) com cogestão do Instituto Espaço Silvestre, foi uma grande surpresa, já que este ambiente não tem como propósito a reprodução.

Centros como esses recebem animais debilitados, vítimas de tráfico ou encontrados longe do habitat, auxiliam no diagnóstico, iniciam os cuidados e avaliam a possibilidade de destiná-los à natureza.

“Esses nascimentos foram indicativos de que a família está bem coesa, se alimentando bem, se dando bem”, afirma Vanessa Kanaan, diretora técnica do Instituto Espaço Silvestre. Filhote de bugio-ruivo que nasceu em Florianópolis durante a pandemia; espécie está em extinção da capital de SC há 150 anos Instituto Espaço Silvestre/Divulgação A história desses nascimentos é repleta de bons acasos.

A reprodução no viveiro é o primeiro passo para a retomada do estabelecimento de populações de bugios na Ilha de Santa Catarina, já que se encontram extintos nessa localidade há mais de 150 anos e sofrem diversas ameaças por todo o Brasil.

A caça, a perda de habitat e até a febre amarela aliada à ação humana incoerente de matar os macacos por medo da infecção, auxiliaram a dizimar populações. Cinco famílias de bugios vivem no CETAS-SC e são testadas desde que chegaram para que, um dia, possam significar a volta da espécie à Ilha de Santa Catarina Introduzir animais na natureza, porém, é um processo longo e que depende de recursos financeiros e do ritmo de desenvolvimento das espécies.

Bichos assim não podem querer interagir com humanos, mas também não podem ser agressivos, não podem ter uma população pequena para se reproduzir e dependem de boas áreas de soltura.

“O grupo pode ter um parasita que precisa ser tratado, o indivíduo pode ter uma doença que não é tratável e ele nunca vai poder voltar para a natureza, pode ser que um animal precise de muito tempo para ser treinado...”, exemplifica Kanaan quanto ao futuro de Corona e Covid. Bugios adquirem a coloração ruiva através de uma secreção vermelha que deriva da hemoglobina e adere ao pelo Janaína Aparecida/Acervo Pessoal Filhos da esperança A sociedade dos bugios acumula uma série de determinações.

Um macaco adulto macho sempre ocupa o posto de liderança e é ele que tem acesso às fêmeas para a reprodução.

Na história de Covid e Corona, porém, o líder era vasectomizado e não poderia procriar.

Contrariando a lógica natural da hierarquia, os pesquisadores acreditam que um dos macacos jovens do grupo é o pai desses filhotes.

Tão improvável quanto a lógica da paternidade dos "bugiosinhos" foi a análise das progenitoras.

Como bugios são naturalmente “barrigudos”, as fêmeas que engravidaram não aparentaram mudanças.

“Apesar de inspecionarmos os animais todos os dias, nós não identificamos nada de diferente.

Até que, durante uma ronda, vi um rabinho peladinho e comecei a gritar: ‘Gente tem um bebê bugiu aqui’”, relembra Vanessa que também viu a emoção se repetir semanas depois quando o segundo filhote da família nasceu, um duplo acaso incomum na natureza.

A gestão do espaço foi assumida há pouco mais de um ano pelo Instituto e os bugios adultos já estavam no local Vanessa Kanaan/Espaço Silvestre A real COVID A chegada do novo coronavírus alterou as dinâmicas de trabalho em Centros de Triagem como o de Santa Catarina.

Além das medidas de isolamento social para evitar qualquer transmissão entre os funcionários, a possibilidade de a doença afetar grupos de primatas, felinos e mustelídeos (animais como lontras e furões), exigiu que os cuidados fossem redobrados.

No caso dos jovens bugios, visitas menos frequentes dos pesquisadores ao ambiente, reforços de vitaminas na dieta das mães e enriquecimentos ambientais como folhas, troncos e pinos são dados aos animais para que se distraiam com proteção, saúde e prudência, além de estimularem a curiosidade.

Filhotes estão com meses de existência e passarão por anos de procedimentos e treinamentos para a vida livre Vanessa Kanaan/Espaço Silvestre Daqui alguns anos, a pandemia vai ser uma memória ruim, mas os bugiosinhos vão estar vivos e serão uma história de sucesso e boas memórias nesse período tão difícil Bugios liberam secreção que deixa o pelo vermelho; veja!